REVISTA TAE - “É importante conhecer o saneamento pelo mundo e refletir sobre as questões enfrentadas em cada local”

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“É importante conhecer o saneamento pelo mundo e refletir sobre as questões enfrentadas em cada local”

Data:15/12/2017- Fonte:ABES

Sueli Melo

Thomas Ficarelli, coordenador do JPS-SP, conta sobre a viagem que fez a Budapeste, na Hungria, para mais uma pesquisa de seu doutorado.

Depois de visitar Fortaleza, no Ceará, e o Quêna, na África, o coordenador do programa Jovens Profissionais do Saneamento da ABES-SP (JPS-SP), Thomas Ficarelli, esteve, entre os dias 5 e 20 de novembro, em Budapeste, na Hungria, para realizar mais um estudo de caso sobre Sistemas de Informações Geográficas (SIG) em companhias de saneamento básico. O resultado do trabalho de campo estará em sua tese de doutorado, que será publicada no segundo semestre de 2018. Um dos objetivos da pesquisa e comprovar que essas tecnologias são aplicáveis em qualquer lugar do planeta.

Thomas defende, ainda, que “criatividade, equipe técnica e gestão podem ser muito mais importantes que investimentos maciços em sistemas de informação (hardwares e softwares) para que a companhia usufrua da melhor forma informações geoespaciais disponíveis e produzíveis”.

Leia a entrevista, a seguir:

 ABES Notícias – Neste ano, você foi para o Quênia (África) e agora para a Hungria. O que o motivou a escolher entre estes dois países para o seu trabalho? 

Thomas Ficarelli – O cadastro de redes e clientes, as informações geoespaciais e os SIGs vêm mostrando utilidade crescente para os serviços de água e esgoto e isso já pode ser aplicado basicamente em qualquer cidade do mundo. Para a pesquisa, além da CAGECE em Fortaleza – CE, busquei uma cidade africana e uma europeia para fazer um comparativo global e fui me comunicando com companhias responsáveis pelo serviço de grandes cidades pelo mundo. Pela complexidade, muitas ficaram receosas ou não tinham estrutura/organização ou mesmo interesse pela pesquisa.

Nairóbi (Quênia) me motivou por ser uma cidade bastante desenvolvida para o contexto africano e, pela visita ao website da companhia local, achei bem organizada e estruturada para me receber. Depois de algumas tentativas frustradas na África para aplicar a pesquisa (Angola, Moçambique, Marrocos e Argélia) recebi uma resposta positiva e imediata de Nairóbi já no primeiro instante.

Na Europa, iniciei o contato pela Hungria por eu ter vivido lá em 2005 e acreditei que a intimidade com o país e conhecimento da língua húngara contribuiria na minha comunicação com a companhia de Abastecimento de Budapeste (F?városi Vízmüvek) e acabei tendo a resposta positiva já na primeira tentativa no continente.
 
ABES Notícias  – Da mesma forma como fez com o país africano, é possível fazer uma breve análise da situação do saneamento na Hungria com a do Brasil e do Quênia: semelhanças e diferenças, iniciativas que deram certo e que poderiam servir para ambos os países em questão?

Thomas Ficarelli – O método (questionário) que criei para avaliar o uso e gestão de informações geográficas se mostrou aplicável e orientativo nas três cidades, o que sugere sua aplicação em âmbito mundial. Apesar das diferenças socioeconômicas, ambientais, de saneamento básico e da gestão interna dessas companhias de saneamento, todas elas apresentam seus aspectos positivos e negativos no que tange o objeto principal da pesquisa. É esperado que, tendencialmente, cidades mais desenvolvidas obtenham resultados melhores. No entanto, a forma como as companhias se apropriam dos problemas urbanos é extremamente curiosa, principalmente em cidades desafiadoras com problemas como estiagem ou favelas em grande quantidade.

Busco na minha pesquisa defender que não existe um único método para resolver um problema e que criatividade, equipe técnica e gestão podem ser muito mais importantes que investimentos maciços em sistemas de informação (hardwares e softwares) para que a companhia usufrua da melhor forma informações geoespaciais disponíveis e produzíveis. Os principais aspectos de cada companhia serão apresentados no resultado desta pesquisa, a ser publicada no segundo semestre de 2018.

ABES Notícias  – O que você vivenciou que foi mais marcante, sobretudo em relação às questões ambientais nesta viagem?

Thomas Ficarelli – A respeito do abastecimento de água em Budapeste, achei curioso e criativo o fato de ser utilizada uma rede de poços sobre as ilhas fluviais do Rio Danúbio (Szentendre e Csepel). As camadas de solos dessas ilhas acabam funcionando como um filtro natural e o nível médio da água é de 10m abaixo da superfície. Dessa forma, a economia com bombeamento e tratamento é enorme e provoca baixo impacto ambiental.

Um fator marcante foi ter visitado a ETE Central de Budapeste, a qual trata metade do esgoto da cidade. Ela foi construída com apoio financeiro da União Europeia em 2009 e foi concebida com tecnologias de primeiríssima qualidade. Todos os processos são automatizados e a eficiência do tratamento é de 95%. O efluente retorna ao Rio Danúbio com qualidade quase igual à do próprio rio e o monitoramento da fauna aquática do entorno é constante. Ou seja, o corpo abastecedor e o corpo receptor são basicamente o mesmo (Rio Danúbio) e mesmo assim a preservação ambiental e qualidade da água são garantidas.

Outro fato observado foi o investimento maciço do governo húngaro em análises ambientais do território, as quais dão base para a normatização do uso e ocupação do solo e conservação dos recursos naturais. Em terceiro, a universalização do saneamento em toda a região metropolitana.


ABES Notícias  – E a respeito das pessoas, principalmente os jovens, da região que você visitou, o que você pode dizer sobre a relação delas com meio ambiente, saneamento?

Thomas Ficarelli – Nesta ocasião não tive a oportunidade de conhecer muitos jovens. Nas conversas, muitos deles já têm o hábito de separar os resíduos residenciais para reciclagem, visto existir uma coleta seletiva da prefeitura local. A Hungria tem avançado muito nos últimos tempos em sua política ambiental, tanto por interesse próprio quanto por adaptação a regulamentos da União Europeia e os jovens se mostram empenhados e preocupados com a questão, independendo de serem profissionais do setor ou não.

ABES Notícias – Há programas semelhantes ao JPS no país ou na região que você esteve? Se sim, como é este trabalho por lá?

Thomas Ficarelli – Existem sim. Lá existe a Associação Húngara de Companhias de Saneamento (MAVÍZ), a qual tem diversas parcerias com universidades e atividades direcionadas aos jovens. Não cheguei a conhecê-los pessoalmente, mas me informaram sobre o prêmio Havas András, ocorrido anualmente para jovens de até 35 anos. Apesar de haver jovens, me pareceu não existir um programa específico para os jovens pelo fato deles trabalharem integradamente com os sêniors.

ABES Notícias – Na sua visão, como esse conhecimento, adquirido nestas viagens, pode contribuir no seu trabalho com o JPS-SP e, consequentemente, com o saneamento no Brasil?

Thomas Ficarelli – Para o JPS, pretendo compartilhar essa experiência com todos os jovens interessados. Sempre frisei na minha gestão a importância de conhecermos o saneamento pelo mundo e refletir sobre as questões enfrentadas em cada local. Nascemos ouvindo que o Brasil é um país problemático com um governo ineficiente, corrupto e com uma sociedade injusta, mas isso se reproduz em centenas de outros países. Mesmo em áreas desenvolvidas existem problemas como estiagens, custeios bilionários com estruturas, críticas sobre metodologias de cálculo de tarifas, conflitos nos usos múltiplos da água e poluição. Espero propiciar aos jovens conhecimento para olharem os fatos e não os estereótipos.

Com o Brasil, estou aberto e pretendo amplamente divulgar minha pesquisa para as companhias de saneamento básico interessadas nos resultados e nas maneiras que eu encontrar de potencializar a capacidade da equipe técnica no uso de informações geoespaciais, na integração de sistemas e, principalmente, na promoção da comunicação e cidadania com a população atendida.

Para quem tiver maior interesse nesta pesquisa, estou disponível no e-mail thomas.ficarelli@usp.br.


Foto: Rio Danúbio atravessando a cidade de Budapeste – Fonte: http://www.travelandleisure.com

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