REVISTA TAE - Entrevista Sibesa: “universalização é o grande desafio do Brasil”

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Entrevista Sibesa: “universalização é o grande desafio do Brasil”

Data:22/06/2018- Fonte:ABES

Suely Melo


Leia a entrevista com as professoras Selma Aparecida Cubas e Karen Juliana do Amaral, diretoras da ABES-PR e integrantes da Comissão Organizadora desta edição do encontro

Por Suely Melo

Entre os dias 18 e 20 de junho, aconteceu em Foz do Iguaçú, no Paraná, o XIV Simpósio Ítalo Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental – Sibesa. Promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES e ABES Seção Paraná (ABES-PR), em parceria com a Associazone Nazionale di Ingegneria Sanitaria-Ambientale – ANDIS, o encontro ocorreu no Bourbon Cataratas Convention & Spa Resort e teve como tema central “Saneamento Sustentável – Desafio dos Nossos Tempos”.

Realizado desde 1992, o simpósio acontece a cada dois anos, alternando sua sede entre Itália e Brasil e promove o intercâmbio técnico e científico entre os profissionais, empresários e acadêmicos que atuam na engenharia sanitária e ambiental dos dois países.

Na entrevista, a seguir, as integrantes da Comissão Organizadora da ABES-PR desta edição do encontro, Profa. Dra. Selma Aparecida Cubas, da Universidade Federal do Paraná – UFPR e a professora Karen Juliana do Amaral, falam sobre a importância da realização. Segundo as especialistas, a universalização é o principal desafio do saneamento no Brasil. “A universalização dos seus quatro pilares [Água, Esgoto, Drenagem Pluvial e Resíduos Sólidos], assegura uma vida saudável, promove o bem-estar, a redução da desigualdade, trabalho e crescimento econômico, bem como assegura a disponibilidade hídrica, por meio de uma gestão sustentável da água”.

No primeiro dia do evento, 18 de junho, Selma Cubas coordenou o painel “Saneamento, Saúde e Proteção Ambiental como Direito Fundamental”, que contou com palestras de Aloísio Krohting, professor da Pós Graduação no Mestrado e Doutorado da Faculdade de Direito de Vitória do Espírito Santo – FDV, e do professor Arlindo Philippi Junior, da Escola de Saúde Pública da USP, que destacou a saúde como principal objetivo do saneamento. No mesmo dia, foi lançado um livro do professor Arlindo sobre o tema.

Confira a entrevista

ABES Notícias – Qual é a importância deste evento e da ABES nesta discussão sobre o tema “Saneamento Sustentável – Desafio dos Nossos Tempos”?.

Selma Aparecida Cubas e Karen Juliana do Amaral – O Saneamento sempre foi um desafio a ser vencido e que vem se agravando, principalmente nas áreas urbanizadas, devido ocupação desordenada dos espaços, sem planejamento e controle. Os maiores impactos negativos podem ser verificados nos rios urbanos, onde suas várzeas também foram ocupadas e o seu leito foi obstruído pelo assoreamento, as suas águas são coloridas, cinzentas ou negras em função carga poluidora que recebe diariamente, seja doméstica ou industrial, seja líquido ou sólido. Estes materiais, líquido ou sólido, também são lançados nas ruas, calçadas, terrenos vagos ou, simplesmente, no solo. Não se pode esquecer das emissões de contaminantes na atmosfera, oriundas de diferentes causas. Estes conjuntos de fatores representam sérias consequências para o homem, levando-o, muitas vezes, a viver sem as mínimas condições de dignidade e qualidade de vida, colocando em risco sua saúde e sobrevivência.

Diante deste cenário, tornam-se necessárias mudanças profundas de comportamento individual, social, empresarial e da administração pública, a partir do estabelecimento de metas e premissas, que resultem em compromissos que visem um desenvolvimento mais sustentável. Em 2015, líderes de 193 países acordaram em uma nova agenda para o desenvolvimento sustentável para os próximos 15 anos, visando diminuir as emissões que vêm contribuindo para as mudanças climáticas no mundo. Esta nova agenda resultou novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), onde o saneamento está direta ou indiretamente inserido e se coloca à frente como desafio para os nossos tempos, considerando o tripé da sustentabilidade como premissa das ações a serem desenvolvidas.

É papel da ABES e da ANDIS discutir e participar de discussões que envolvem toda a sociedade na construção do saneamento sustentável, considerando as vertentes sanitárias, bem como as ecológicas e ambientais, as sociais, políticas e econômicas, respeitando as diversidades culturais. Estabelecer encontros, como SIBESA, onde possam participar direta ou indiretamente, pesquisadores, professores, estudantes, profissionais de empresas públicas e privadas, organizações sociais e gestores públicos, para que possam ser debatidas questões relacionadas ao saneamento e ao meio ambiente, envolvendo apresentações de novas tecnologias, que visem tornar os serviços de saneamento acessíveis a todos e com sustentabilidade.

ABES Notícias – Na sua visão, qual é a situação do Brasil em relação a esta temática? 

Selma Aparecida Cubas e Karen Juliana do Amaral – Em 2007 foi aprovado o Marco Legal do Saneamento Básico no Brasil por meio da Lei 11.445, chamada de Lei do Saneamento Básico. Em 2017 ela completou 10 anos e não alcançamos a universalização, principal objetivo da Lei.

Segundo os indicadores oficiais do Ministério das Cidades – SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), no Brasil, 34 milhões de pessoas não têm acesso adequado ao abastecimento de água, 85 milhões não têm acesso ao esgotamento sanitário (rede coletora nas zonas urbanas e rede coletora ou fossa séptica nas zonas rurais) e 6,6 milhões não têm nem sequer banheiro. São 134 milhões de pessoas que são atendidas com rede coletora, mas o esgoto é lançado sem tratamento indevidamente corpos de águas, causando poluição e contaminação dos nossos rios.

O Brasil apresenta hoje um quadro acentuado de carência no saneamento urbano e rural. A falta de saneamento adequado e a falta de higiene têm impactos adversos significativos à saúde da população. Não podemos permitir que doenças relacionadas a sistemas precários saneamento básico, aliado à desnutrição e a pobreza, causem milhões de óbitos em países pobres ou em desenvolvimento como no Brasil. Ou ainda, aceitar que doenças já erradicadas ou controladas no passado, como Cólera, Dengue, Febre Amarela, entre outras, se espalhem pelo  país, cujos transmissores se modificaram e se adaptaram facilmente a nossa realidade, surgindo novas doenças. O acesso à água potável e ao saneamento básico é um direito humano essencial, previsto na Constituição.

ABES Notícias  – Quais são os principais desafios e avanços? E qual é o papel da tecnologia neste cenário?

Selma Aparecida Cubas e Karen Juliana do Amaral – O principal desafio do Saneamento é a universalização dos seus serviços, pois a universalização dos seus quatro pilares assegura uma vida saudável, promove o bem-estar, a redução da desigualdade,  promove trabalho e crescimento econômico, bem como assegura a disponibilidade hídrica, por meio de uma gestão sustentável da água e contribui diretamente para a sustentabilidade das cidades, por meio de ações contra a mudança do clima e que preservem a vida na água e na terra.

Portanto, torna-se necessário redirecionar as tendências do desenvolvimento buscando tecnologias de controle e manejo do meio ambiente de forma sustentável, considerando uma abordagem multidisciplinar das questões ambientais, integrando as ações de saneamento com as políticas de desenvolvimento urbano e rural, de meio ambiente e de recursos hídricos, e, principalmente, aliadas as políticas de saúde pública.

O desenvolvimento das tecnologias para o saneamento deve mudar os paradigmas atuais, como um novo olhar de transformação. Os sistemas atuais de saneamento devem ser repensados, pois também podem causar impactos, sejam na forma sólida, líquida ou gasosa.

Na verdade, são grandes indústrias de transformação e a matéria prima, seja água, esgoto ou resíduos sólidos, é transformada em novos produtos, que podem e devem ser utilizados, reutilizados ou reciclados. Não se pode mais desenvolver tecnologias que não se integram aos espaços urbanos, rurais ou naturais. Os potenciais de uso dos produtos gerados nos tratamentos devem ser inseridos novamente na cadeia produtiva como energia (na utilização dos gases gerados), como biofertilizantes, agregados da construção civil ou como fontes de nutrientes, por meio da recuperação (utilização de lodos de ETAs e ETEs) ou, simplesmente, como água na forma de reúso potável ou não.  As tecnologias atuais e futuras devem considerar a análise do ciclo de vida e os princípios da economia circular.

ABES Notícias – Esta já é a décima quarta edição do simpósio, qual é o significado deste intercâmbio entre Brasil e Itália? 

Selma Aparecida Cubas e Karen Juliana do Amaral- Em um momento em que o mundo se volta para ações que visem à preservação do meio ambiente e a vida no planeta, torna-se necessário estabelecer cooperações entre países, como a Itália, Portugal, Suécia, Alemanha, Japão e muitos outros, de modo a alcançar os objetivos do Desenvolvimento Sustentável, considerando o saneamento como fundamental. A troca de experiências está além de um encontro técnico-científico entre dois países, pois nesta edição teremos também a participação de pesquisadores da KTH da Suécia. Cabe destacar que, com a inovação da tecnologia da informação e comunicação, os trabalhos apresentados aqui estão abertos ao mundo, não há fronteiras. O importante é que estes assuntos sejam discutidos em ambas as edições (Brasil e Itália), possibilitando as trocas de informações sejam presenciais ou não.

ABES Notícias  – Quais são as expectativas para o evento?

Selma Aparecida Cubas e Karen Juliana do Amaral –  Possibilitar um encontro para troca de experiências, que envolvam vários setores da sociedade abordando e  discutindo questões relacionadas à solução de problemas atuais e que embasem o planejamento futuro como, por exemplo,  o saneamento como direito humano e de saúde; a política e o sistema de gerenciamento dos recursos hídricos; a gestão e o gerenciamento de resíduos; a eficiência energética e a diminuição de perdas de água; a sustentabilidade nos sistemas de tratamento esgoto; o biogás como energia renovável e a drenagem urbana, incluindo também discussões sobre o Marco Legal e o saneamento rural. Desta forma, se espera que o evento contribua para a propagação e discussão de novas ideias e incentive mudanças em direção a um futuro ambientalmente sustentável e comum para todos.

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