REVISTA TAE - Simpósio internacional sobre escassez hídrica e reúso de água promovido pela ABES é sucesso de realização

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Simpósio internacional sobre escassez hídrica e reúso de água promovido pela ABES é sucesso de realização

Data:21/11/2018- Fonte:ABES

Suely Melo


Por Suely Melo e Clara Zaim

A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES promoveu nos dias 12 e 13 de novembro, o “Simpósio Internacional: Escassez Hídrica e Reuso de Água como parte da Solução”.

Sucesso de realização e participação, o evento, em parceria com a Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, contou com palestras de especialistas de Israel, Espanha, Grã-Bretanha e México, além de importantes nomes do setor no Brasil, como Mônica Porto, Chefe do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da EPUSP e associada da ABES, e Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água. Cerca de 200 participantes passaram pelo simpósio, que aconteceu no Tivoli Mofarrej São Paulo Hotel, na capital paulista. O evento ainda contemplou, nesta terça, dia 13, uma visita ao Aquapolo.

Participaram da abertura o coordenador da Câmara Temática de Dessalinização e Reúso da ABES, Renato Giani Ramos, representando o presidente nacional da entidade, Roberval Tavares de Souza, o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, Ricardo Borsari, o diretor Metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, representado a presidente da empresa, Karla Bertocco, e Arly de Lara Romêo, presidente da Sanasa.

Em sua fala de abertura, Renato Ramos afirmou que a sociedade técnica e civil está interessada em elevar o nível do saneamento, buscar melhorias e torna-lo diferenciado. “São dois dias importantes, um espaço para os tomadores de decisão. Temos exemplos internacionais que podem ser adequados para o nosso país e à nossa realidade. As oportunidades são poucas e devemos aproveitar”, destacou.

Ricardo Borsari ressaltou que o evento foi programado para “atacar” mais uma frente no combate a tudo que vem acontecendo no cenário desde 2014 (quando começou a grave estiagem, que afetou fortemente a Região Metropolitana de São Paulo). “Foi uma situação de escassez hídrica importante com a possibilidade de virar rotina no dia a dia da população”, lembrou.

“Trabalhamos muito bem na questão de atendimento de água potável, esgotamento sanitário e segurança hídrica. Temos um sistema de resiliência que nos permitiu enfrentar o inverno seco desse ano. Estamos investindo no controle de perdas e abrindo uma nova frente com esse seminário que visa coletar experiências internacionais na regulação do reúso”, disse o secretário. E enfatizou que “o reúso é uma nova fonte de abastecimento que substitui com qualidade a água, potável tanto para determinados usos adequados como o industrial, a irrigação e a limpeza dos logradouros públicos e tudo que se faz no mundo, no sentido de preservar um bem que é escasso: a água potável que chega à casa de cada um”.

Já Paulo Massato explicou que o planejamento estratégico da Sabesp sempre levou em consideração as questões das mudanças climáticas, o que ajudou a decidir pela água de reúso do Aquapolo para atender a demanda do polo petroquímico. “A água de reúso é importante. Contribui para entrar na matriz de oferta de água na Região Metropolitana e também contribui para o seu desenvolvimento socioeconômico com as grandes indústrias consumidoras de água”, frisou. “Temos dificuldade de fornecer água de reúso para o uso potável, mas temos que superar as dificuldades do uso não potável para uso industrial, lavagem das cidades e irrigação”, concluiu Massato.



O presidente da Sanasa, Arly de Lara, disse que a crise que afetou a região Sudeste trouxe lições importantes para governantes, gestores e para a população. “Tivemos uma redução de 20% no consumo de água”, frisou. “Sem saneamento não há saúde pública. Temos que avançar e são inúmeros temas importantes nessa área”. Frisou ainda que o Ministério das Cidades reservou 18 bilhões para serem investidos no saneamento, mas somente 3 bilhões foram utilizados por falta de capacidade, legislação. “A discussão sobre o reúso precisa ser vencida para completarmos o ciclo da água. O evento só tem a acrescentar”.

O papel do reúso



A palestra de abertura do evento foi ministrada pelo presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, que abordou o tema “Segurança Hídrica Global – O papel do reúso”. Ele agradeceu à ABES pelo convite e enfatizou: “não há nada mais importante do que a segurança hídrica”. Segundo a autoridade, a iniciativa de promover o evento sobre o reúso é muito oportuna. “Cada dia mais, com os problemas que estamos enfrentando, com maior variabilidade e eventuais mudanças climáticas, temos que valer de todos os meios que temos nas mãos para aumentar a resiliência, para nos adaptarmos a essas mudanças”, destacou.

Para Benedito Braga, além da infraestrutura hídrica e aumento da reservação de água, a reutilização da água servida e residual também é uma forma inteligente de gerar mais água de boa qualidade para diversos usos. “Vamos estar mais resilientes e melhor adaptados às mudanças climáticas. Aqui, ouvimos diferentes experiências do mundo sobre a utilização da técnica que no Brasil é incipiente. Tem alguns casos na Região Metropolitana de São Paulo, mas é muito interessante a iniciativa no sentido de possibilitar um intercâmbio maior com especialistas de diferentes partes do mundo. Parabéns à ABES e à Secretaria”, finalizou.

Em sua apresentação sobre “Panorama da escassez e da oferta hídrica no estado de São Paulo: riscos para as atividades produtivas e necessidade de expandir medidas de racionalização dos usos”, Mônica Porto enfatizou que São Paulo tem nível de uso de água muito alto. E que é preciso falar de reúso e se preparar para os desafios como custos tecnológicos e planeamento. A especialista destacou também que a regulação é outro ponto que precisa dar segurança jurídica para os produtores de reúso.

“A discussão do reúso é essencial para a sustentabilidade da água do estado de São Paulo nas próximas décadas”, frisou. “É muito bom ouvir as experiências internacionais porque ainda temos áreas que precisam evoluir. A área de legislação é uma delas, os outros tipos de reúso, como o agrícola, as formas de incentivo ao reúso. Então, é muito bom poder discutir quais são as experiências brasileiras e as do exterior”, ressaltou.

Experiências Internacionais

No âmbito do painel “Experiências Internacionais” foram feitas três apresentações. A primeira, abordou o “Reúso no México (parte 01): tipologias de reúso, custos de produção e venda, obstáculos para implementação”. A palestrante foi Gabriela Mantilla, do Instituto Mexicano de Tecnologia da Água. “A seriedade com a qual as agências e operadoras estão agindo em relação à escassez hídrica é exemplar”, disse. “Isso abre caminhos para pegarmos as experiências de outros países tanto sobre o que fazer como o que não fazer. Temos que continuar concentrando esforços para garantir o abastecimento de água potável para a população. Mas não podemos descuidar da parte onde não há necessidade de água potável, onde tem que prevalecer reutilização de águas residuais”, afirmou.

Victor Manuel Tlapa, da Comissão Nacional da Água (CONAGUA), seguiu com a apresentação “Reúso no México (parte 02): regulação e tipologias de reúso, custos de produção e venda, obstáculos para implementação”.  Para o palestrante, o evento é muito importante e relevante para a transmissão de conhecimento. “Podemos pensar em coisas que não tínhamos visto e conhecer outras realidades para a melhoria do setor”, frisou.

Já Danny Greenwald, chefe do Departamento de Reúso de Água, Autoridade de Água de Israel, falou ao público acerca do tema “Reúso em Israel: quadro institucional e regulação para os diferentes usos”.  O especialista explicou que Israel tem suporte financeiro e jurídico. E que o país utiliza processo de dessalinização. “Temos como foco o baixo teor de sal e efluentes tratados. Temos feito pesquisas e cronograma de irrigação, entre outros. No futuro teremos mais água dessalinizada. Temos apoio governamental em todos os estágios”, contou. Sobre a agricultura israelense, destacou que os agricultores recebem ajuda na infraestrutura e têm uma parte de seus projetos subsidiados. “O futuro da agricultura é um processo que estamos trabalhando e existem cotas para determinada região, tipo de terra e plantação. A água de reúso é sempre cotada”, pontou.



Experiências brasileiras

No segundo painel do primeiro dia do evento, foram apresentadas quatro palestras no painel “Experiências Brasileiras.  A primeira, foi realizada por Fernando Gomes da Silva, diretor da Aquapolo Ambiental S.A. Ele falou sobre o tema “Aquapolo: origem do empreendimento, modelo de negócio, vazões, qualidade, clientes, potencial de expansão, potenciais clientes e adaptações na qualidade”, enfatizando que “o abastecimento público é uma prioridade”.

Segundo ele, é importante ter discussões desse nível e quebrar paradigmas, ver as experiências de outros países para quem está envolvido com o reúso. “A questão do reúso do esgoto tratado é quase uma unanimidade, ninguém é contra. Todo mundo é a favor. É preciso se unir para que mais projetos com o tema se tornem realidade”, afirmou, lembrando que o Aquapolo é pioneiro. “Acreditamos que tem condições econômicas, práticas e técnicas de engenharia para outros empreendimentos”, destacou Fernando.

Sobre o evento, ele salientou que o seminário com esse nível de participação traz benefício para quem está preocupado com esse novo recurso que era visto como um problema e hoje é visto como uma solução. “Ter a capacidade de tratamento e depois reusar é um benefício e não uma preocupação. Foi uma ótima iniciativa da ABES com dois dias de seminário com muita qualidade e a visita do público à nossa empresa”, concluiu.

Renato Rosseto, gerente de Tratamento de Esgoto na Sanasa, por sua vez, falou sobre o tema “Sanasa: tecnologia utilizada, vazões, problemas logísticos para distribuição, estratégias para venda, clientes potenciais, análise das restrições para viabilização e expansão”. “Este é sem dúvida um evento muito importante porque debate, expõe as ideias, as carências do setor, que precisa de investimento, que precisa ser priorizado pelo governo. Esta é uma ação governamental”, explicou Rosseto.

Ele afirmou, ainda, que a população precisa se engajar no tema, tem que aceitar [a água de reuso], mas antes disso, são necessárias algumas ações. “Temos que fazer redes. O Brasil é muito carente de redes, em muitas áreas, como o Norte, o Nordeste e até mesmo em cidades do Sul”, destacou. “Temos que ter tratamento de esgotos com níveis elevados para preservar os rios”, completou. De acordo com ele, encontram-se fármacos, hormônios, produtos de higiene pessoal, muita coisa no esgoto e nas águas que não se conhece ainda. “Precisa investimento em pesquisa, recursos, formar profissionais dos mais diversos segmentos da engenharia. É uma ação conjunta que precisa de bastante investimento”, reafirmou. “Parabenizo a ABES pela iniciativa.”

Discorrendo sobre o tema “Banco Mundial – estudo sobre reúso na América Latina: panorama do reúso na AL, estudos de precificação (economia e financiamento do reúso)”, Hector Alexander Serrano, especialista em Gestão de Recursos Hídricos no Banco Mundial, afirmou que é preciso mudar o paradigma e promover a fusão de soluções integradas em Bacias e rios, usar novas tecnologias e desenvolver outros produtos. “O reúso traz vantagens como novos negócios e modelos financeiros, oportunidade de desenvolver estações mais eficientes. São exemplos La Farfana, no Chile, e Tenorio Project, no México”, mostrou. Segundo ele, é necessário definir parâmetros dos projetos, entender as plantas e a legislação, entre outros. “Precisamos ter modelagens. A água de reúso depende da escassez de água de alguma região, mas pode ter um futuro promissor. Temos mercado, pessoas e tecnologias, precisamos mudar a percepção e aproveitar as oportunidades”, pontuou.

“CH2: Plano Nacional de Reúso” foi o tema abordado por Helene Kubler, gerente Sênior de Projetos na CH2 Ministério das Cidades. “Uma política de reúso é um compromisso coletivo de longo prazo”, enfatizou. “São Paulo passou por uma crise hídrica importante e a mensagem aqui é que reúso faça parte da solução”, disse. “O tema tem sempre que ser abordado. É um momento importante porque acabamos os trabalhos do Ministério das Cidades. E esta foi uma oportunidade para apresentar as recomendações. Fico muito feliz”.

O segundo dia do simpósio contemplou mais uma experiência internacional. Ministrada por Devendra Saroj, docente Sênior (Professor Associado) no Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Surrey, no Reino Unido, a palestra abordou o “Reúso na Grã-Bretanha”. Segundo o acadêmico, “o Brasil é como a União Europeia, alguns estados estão mais avançados que os outros”. Já Israel, disse, está mais evoluído do que a União Europeia no sentido de regulação. “As pessoas precisam mudar o pensamento e se informar melhor tecnicamente sobre a água de reúso. Não pensam na estação de tratamento, que trabalha na reciclagem da água”, frisou. De acordo com Devendra Saroj, na Grã-Bretanha não há uma legislação específica para o reúso de água. “Somos 100% privatizados. Há 38 leis domésticas que vão gerir a água de reúso. Temos medidas de emergências”, complementou.

A Consultora em Gestão Empresarial e Ambiental na ABNT, Lilian Sarrouf, discorreu sobre o assunto “Norma ABNT (edificações): Reúso na construção civil. Situação e perspectivas”. “Como avançar no tema?”. Ela questionou para em seguida responder: “podemos avançar com políticas públicas, Normas ABNT, desempenho, capacitação dos profissionais, tecnologias e inovação; engajamento da sociedade e divulgação/eventos sobre o tema”.

Para a especialista, é muito importante participar de fóruns como os da área de saneamento. “Temos uma visão do portão para dentro dos nossos prédios, das nossas escolas e temos pouca comunicação com a ABES, que trata do saneamento como um todo”, salientou Lilian. “É uma boa oportunidade de integração, pois consumimos muita água potável e temos que fazer a nossa lição de casa também. Queremos uma integração maior com quem está fazendo o saneamento de nossa cidade pensando numa questão mais urbana e que possamos alinhar os objetivos”.

O professor pesquisador da Universidade de São Paulo, José Carlos Ierzwa, apresentou sobre “Reúso Potável sob perspectivas das diretrizes da OMS”. De acordo com ele, um dos fatores que limitam o reúso é o custo da rede de distribuição. Outro ponto destacado é o investimento em diversos âmbitos. “É preciso investir em tecnologia, práticas de gerenciamento e comunicação de incidentes, regulação e controle independente e envolvimento da comunidade.”

Em relação ao evento, reforçou que foi importante para trazer o tema reúso em discussão para uma audiência mais ampla. “O tema sempre foi restrito, os debates eram realizados somente no meio acadêmico. Os problemas de escassez se agravaram e o tema extrapolou os muros das universidades e começou a ganhar relevância”, desatacou. “O reúso é uma forma e uma oferta adicional de água. O evento mostra o que está sendo feito, quais são os pontos fortes e as limitações para encorajar as pessoas a participarem das discussões e contribuírem para a prática avançar mais”, concluiu.



O tema “Termo de Referência para um estudo de viabilidade do reuso para fins industriais nas Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, no Estado de SP, foi apresentado por Jorge Mercanti, consultor de Meio Ambiente. “O reúso, em termos, já é uma realidade em outros países. No Brasil, temos o reúso de água potável e industrial, esse último só temos na Aquapolo, que é um projeto maravilhoso que iremos aplicar no PCJ”, ressaltou. “É complexo, mas bem abrangente, tanto no aspecto econômico, como no jurídico, regulatório e modelo de negócio”.

 

Encerramento  

Fechando o simpósio, o coordenador da Câmara Temática de Dessalinização e Reúso da ABES, Renato Giani Ramos, falou sobre os “Desafios e Oportunidades de Reúso no Brasil”.

O especialista chamou atenção para um dos desafios relacionados ao tema: o fato de as pessoas terem dúvidas se vão poder tomar água que vem direto do esgoto, se tem qualidade. “Quando falamos de reúso, já se pensa em potável direto, aprendemos aqui que existem vários tipos, como por exemplo, o potável indireto e o reúso não potável. É preciso vencer esse preconceito”, argumentou. “O reúso permite tratar o esgoto e aumentar a oferta de água, permite diminuir o preço da água como aconteceu no México, água de reúso é mais barata que a água potável”, completou Renato.



Outro desafio, segundo ele, é que, ao tratar o esgoto de algumas cidades que só recebem o esgoto do rio, estará se mexendo no balanço hidrológico. “Estamos avançando no ponto de vista legal, mas algumas leis são tão burocráticas que impedem o avanço. Falta incentivo financeiro e modelo econômico para a prática. O Aquapolo deu certo, pois tinha um modelo econômico com uma parceria público/privada. Tinha oferta e demanda”, ressaltou.

Renato Ramos disse, ainda, que há um avanço no ponto de vista tecnológico. A tecnologia permite tratar o reúso. E que os seminários, congressos e workshops como esse são fundamentais e têm que estar sempre acontecendo.

Ele aproveitou a ocasião para falar aos presentes sobre a Rio Water Week, a Semana da Água, que acontecerá de 26 a 28 de novembro, no Rio de Janeiro. Um dos eventos mais importantes do mundo, que ocorre em várias cidades. “Temos que repensar nossas ideias, agir rapidamente para evitar a repetição dos problemas, planejar macro e executar o micro e nunca parar o nosso movimento para fazermos acontecer”, concluiu.

Balanço

Para finalizar, Renato fez um balanço sobre a realização. “O simpósio foi um sucesso. Reuniu mais de 200 pessoas no decorrer dos dois dias. O nível das palestras estava altíssimo e houve um avanço nas discussões. Se compararmos o evento desse ano com os anteriores, quando essa discussão estava em pauta, podemos ver que as pessoas têm um conhecimento muito maior, hoje, ressaltou. “As palestras são mais focadas em alguns detalhes que precisam ser acertados. São pequenas arestas pra poder evoluir, tanto na questão do reúso quanto minimizar a escassez hídrica”.
 

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