Controladores de espuma para efluentes e processos industriais
Por Carla Legner Edição Nº 70 - Dezembro de 2022/Janeiro de 2023 - Ano 12 -
Para muitas aplicações e setores da indústria, a espuma não é apenas um incômodo, e sim considerada um grande problema
Para muitas aplicações e setores da indústria, a espuma não é apenas um incômodo, e sim considerada um grande problema. A sua formação em excesso pode levar dutos a transbordarem, interferir em processos, em embalagens, e até mesmo danificar materiais e equipamentos.
Renato Nunes de Souza, serviço técnico e desenvolvimento da Dow para Soluções Industriais, explica que as espumas são agentes bem específicos que correspondem a dispersão de uma fase gasosa em um meio líquido. Esse tipo de dispersão pertence a um grupo de sistemas coloidais de estabilidade cinética.
Isso significa que, em condições em que não são externamente estimuladas a se manterem presentes, tendem ao colapso iminente. Porém, aguardar que esse colapso ocorra naturalmente pode requerer longo tempo. Nesse sentido, a quebra de espuma em curto intervalo ou até mesmo a inibição de sua formação, são desafios da indústria em diferentes campos.
É importante ressaltar que a sua formação é um instrumento bastante complexo e pode variar dependendo do tipo de produto, procedimento e/ou o mercado em questão. Nesse sentido, de acordo com Gustavo Fernandes, representante da Solenis Especialidades Químicas, conhecer o processo gerador da espuma é fundamental para definir a melhor forma de atuar no problema.
Para produção de bioetanol via processo fermentativo, por exemplo, tem-se como subproduto nas dornas a liberação de CO2 e outros produtos espumantes. Processos de limpeza industrial são comumente apoiados em detergentes e limpadores, conhecidos também por serem agentes espumantes.
Já na indústria de óleo e gás, a espumação pode ocorrer devido o alívio da pressão existente em poços e reservatórios em altas profundidades. Nesse caso, gases que se encontravam solúveis em altas pressões, como CO2, perdem sua solubilidade e são responsáveis por sua origem. “Nos sistemas de tratamento de água, especificamente na etapa secundária, a atividade bacteriana para degradação de material orgânico e biológico é a causa mais comum de formação de espuma” – destaca Souza.
Nos efluentes, é normalmente proveniente do tipo que está sendo tratado e tem relação muito estreita com seu processo produtivo. De acordo com Fernandes é um procedimento bastante complexo e pode ser originado por reações bioquímicas.
“Conhecendo a causa do problema é possível buscar a solução mais adequada para cada processo. O uso de químicos para o controle de espuma são as soluções mais comuns, porém há diferentes tipos de bases químicas para essa finalidade e buscar o produto certo, com dosagem correta é o mais importante, além de avaliar os pontos de dosagem e a forma de aplicação”- ressalta Fernandes.
Características
De uma maneira geral, as características físico-químicas das espumas são dependentes da fase líquida, considerada como meio contínuo, onde os contaminantes solúveis poderão ser encontrados por toda essa fase. Além disso, pequenas partículas sólidas e materiais insolúveis com baixo peso são comumente dispersos, uma vez que bolhas tendem a se direcionar para o topo e podem carregar esses materiais para região de espumação.
A presença de surfactantes na água é identificada e quantificada com base em parâmetro físico-químico específico, denominado Surfactantes ou Substâncias Tensoativas. O método analítico empregado para a sua determinação é baseado por MBAS (Substâncias Ativas ao Azul de Metileno).
Souza explica que as espumas são geralmente estabilizadas por esses surfactantes e outras moléculas anfifílicas. Estes apresentam duas porções distintas, uma parte polar (hidrofílica – com afinidade pela água) e uma porção apolar (hidrofóbica – baixa afinidade pela água).
Por conta dessa característica, tendem a migrar para superfícies e interfaces de naturezas distintas. Nesse caso, o ar pode ser considerado um meio apolar e a água um meio polar. Portanto, os surfactantes deverão se orientar na interface, expondo sua porção hidrofóbica para o ar e sua porção hidrofílica para água.
Essa orientação e outras moléculas na interface é uma das principais causas do aumento de estabilidade de espumas. Porém, sua simples presença em solução não garante sua formação. Vale lembrar que é sempre necessário a presença de processos que promovam misturas e agitação mecânica para causar a espumação.
As características dependem da formação. Espumas de surfactantes são em geral brancas e densas que saem voando e espumas em processes são mais compactas e escuras. Espumas de processos biológico em estação de tratamento podem ser causadas por bactérias filamentosas e tem outras características.
É importante ressaltar que podem haver diferentes tipos de contaminantes diretamente no processo ou que se geram ao da questão ambiental, podem causar problemas de processo e equipamentos, ocupando volumes de tanques e reatores, acionamento de sensores, etc” – ressalta Fernandes.
Principais riscos
Como já mencionado, a espuma é considerada um problema e os riscos podem variar de situação para situação. Deve-se considerar os parâmetros físico-químicos do meio em que o controlador será aplicado e/ou exposto. Por exemplo, pH, temperatura, processos de esterilização, presença de outros compostos, ou até mesmo a infraestrutura industrial em que o processo espumante está inserido.
Para alguns mercados que envolvem uma regulação mais severa, como de alimentação humana e animal, as diretrizes determinadas pelo conjunto de normas também podem limitar a aplicação de um antiespumante, especificamente. Atualmente, um critério importantíssimo para escolha de um produto adequado está correlacionado com parâmetros de sustentabilidade.
“Integramos a sustentabilidade em nossos negócios e estamos colaborando globalmente para a transição para uma economia e sociedade mais sustentáveis” – explica Souza. Para tal, a Dow identificou três áreas-foco nas quais acreditam que é possível fazer uma grande diferença e impulsionar as mudanças em todo o setor: Proteção Climática; Economia circular; e Materiais mais seguros.
No caso do tratamento de água, biodegradabilidade e materiais mais seguros são parâmetros procurados. Especificamente para esse setor, Souza explica que a espuma excessiva, especialmente em uma bacia de aeração, pode causar uma variedade de problemas, podendo até interferir na captação de oxigênio dos microrganismos.
A espuma também pode fazer com que o floco biológico flutue produzindo um lodo que não se deposita no decantador final. Riscos de segurança e problemas estéticos ocorrem quando o vento sopra a mesma através de estacionamentos, rodovias ou locais vizinhos.
Ademais, a espuma pode causar problemas com equipamentos e causar derramamentos excessivos que podem oferecer o risco de escorregamento em locais comerciais, causando ferimentos pessoais e outros acidentes. Sem falar que limpar os referidos derramamentos pode ser demorado e trabalhoso. “Eventualmente as espumas podem carregar grande cargas de contaminações as quais não devem ser espalhadas, e nesses casos o controle é de extrema importância” – enfatiza Souza.
Além disso, podem comprometer a eficiência e rendimento de uma planta. Eventualmente, reatores e tanques podem ser majoritariamente ocupados por espumas, ao invés de matérias primas e produtos que deveriam passar pelos respectivos processos. A não utilização da capacidade total de tanques e reatores causa um prejuízo considerável, visto que o tempo necessário para um processo tende a aumentar.
“É importante conhecer o processo do cliente e a compatibilidade do produto com o mesmo, para que o produto seja específico e não cause problemas em outras etapas do processo ou do tratamento. Além disso, avaliações do produto no processo do cliente e métodos de laboratório, para simular a situação e avaliar a efetividade do produto, são fundamentais” – enfatiza mais uma vez Fernandes.